A atividade que o Ministério da Educação tentou impedir que acontecesse lotou o Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), na noite dessa segunda-feira (23).

Organizada pela Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) e intitulada #MoroMente, o ato reuniu movimentos sociais, entidades representativas de classe, parlamentares e organizações da educação. Muita gente não conseguiu entrar no auditório e um telão foi instalado numa sala no andar de baixo.
O debate buscou expor à população a extensão e a gravidade das violações legais promovidas pela atuação do ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, à frente dos processos da chamada Operação Lava-Jato.

Diversas falas também criticaram a política de segurança adotada pelos governos estadual do Rio de Janeiro e também o federal. Foi ressaltado, ainda, que o autoritarismo tenta calar o outro, seja com censura ou com crimes bárbaros cometidos pelo Estado.

Por diversas vezes, a morte de Ágatha, a menina de 8 anos assassinada no Complexo do Alemão, na sexta-feira (20), durante uma ação policial, foi mencionada no ato #MoroMente. Também na noite de segunda, foi realizado um ato em frente à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Os manifestantes cobraram justiça para Ágatha e todas as vítimas de operações policiais nas favelas. Denunciaram, também, a política autoritária e genocida do governo Witzel.

“O dia de hoje foi todo um dia de luta. Estivemos o dia todo envolvidos com esse evento, que a gente não queria só que ele fosse realizado, mas queria que ele fosse realizado aqui, dentro da Faculdade de Direito, nesse local que historicamente representa tanto para a resistência na Universidade Federal Fluminense. Mas também é um dia de luta do outro lado da Baía, é um dia de luta na Alerj, em decorrência do assassinato brutal da Ágatha, que representa tantos assassinatos que têm ocorrido com a política desse e de outros governos que estão por aí”, disse Marina Tedesco, presidente da Associação dos Docentes da UFF (Aduff Seção Sindical do ANDES-SN).

Censura
Na última sexta (20), o reitor da UFF, Antônio Cláudio Lucas da Nóbrega, determinou o cancelamento ato #MoroMente, após receber ofício do Ministério da Educação (MEC). Segundo o documento da reitoria, a realização de ato teria perfil político-partidário e poderia configurar ilícito de improbidade administrativa.
A diretoria da Aduff-SSind divulgou nota manifestando “forte repúdio à decisão adotada, que, sem meias palavras, representa censura à liberdade acadêmica e que, como tal, deve ser atacada.”

Na segunda-feira (23), os organizadores do ato #MoroMente conseguiram uma liminar favorável à realização da atividade. Na decisão, o juiz José Carlos da Silva Garcia, da 3ª Vara Federal de Niterói, destacou que o Supremo Tribunal Federal (STF) já havia decidido “categoricamente” pela “absoluta liberdade de manifestação e expressão no âmbito das universidades, mesmo e inclusive para manifestar preferência ou repúdio de natureza político-ideológica, ou mesmo partidária”.

Morte aos 8 anos
Ágatha Vitória Sales Félix estava com familiares numa kombi, na Fazendinha, no Complexo de favelas do Alemão, quando foi atingida por um tiro de fuzil. Foi levada ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, mas não sobreviveu. O assassinato da criança pelas forças do Estado gerou dor e revolta e ecoou por todo o país. Na manhã seguinte, a hashtag “#ACulpaéDoWitzel” foi o assunto mais comentado do Twitter no Brasil.
O governador defende liberdade para policiais atirarem contra possíveis suspeitos que desconfiem portarem armas. Witzel demorou 72 horas para se manifestar oficialmente sobre o assassinato de Ágatha. Declarou que lamentava a morte da menina, mas avaliou que as operações policiais são um sucesso. Ao longo do ato na Faculdade de Direito da UFF, reiteradas vezes foi defendida a prisão do governador por responsabilidade nos crimes cometidos pela Polícia Militar no Rio.

Com informações da redação da Aduff SSind.
Foto: Luiz Fernando Nabuco – Aduff SSind

Fonte: ANDES-SN