O presidente Jair Bolsonaro determinou que as unidades militares celebrem o Golpe de 1964, em 31 de março. O Golpe depôs o presidente João Goulart e deu origem à ditadura empresarial-militar brasileira (1964-1985).

434 pessoas foram mortas na ditadura

A ditadura deixou 434 pessoas mortas ou desaparecidas, segundo a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Também, milhares de brasileiros torturados e exilados. O Congresso Nacional foi fechado, mandatos foram cassados, trabalhadores demitidos e os brasileiros ficaram até 1989 sem poder eleger o Presidente da República.

Ana Maria Ramos Estevão, 3ª vice-presidente do ANDES-SN e membro da Comissão da Verdade do Sindicato Nacional, critica o presidente. “De uma pessoa com a posição de extrema direita e que se recusa a aceitar a história, é até uma posição esperada. Resta ver se as Forças Armadas seguirão essa determinação temerária. O presidente já negou a história diversas vezes. Diz que não houve Golpe. Homenageou torturadores”, comenta.

A docente lembra que o ANDES-SN segue na luta por memória, justiça e reparação dos crimes da ditadura empresarial-militar. “Queremos o cancelamento da Lei da Anistia, que serviu como perdão para os crimes de Estado e para os crimes de lesa-humanidade. Seguimos reafirmando que houve um Golpe em 1964 e que houve uma ditadura. Jamais esqueceremos”. Ana Estevão ressalta também que muitas seções sindicais do ANDES-SN irão realizar atividades para lembrar o Golpe em 1º de abril, a verdadeira data do Golpe.

ANDES-SN defende o cancelamento da Lei da Anistia

Determinação de Bolsonaro

A determinação do presidente é que a celebração “devida” seja realizada dentro dos muros das unidades. Haverá leitura da ordem do dia, realização de formaturas e palestras sobre o Golpe. A ordem do dia só será divulgada no próprio dia 31. Bolsonaro teme que celebrações públicas possam atrapalhar ainda mais a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 6/19.

O Golpe, considerado por segmentos militares como “revolução democrática”, só deixou de ser celebrado oficialmente em 2012, por ordem da presidente Dilma Rousseff. As Forças Armadas agora avaliam recolocar a celebração do Golpe em seu calendário oficial.

Em 2019, três instituições militares de ensino incluíram a data em seus calendários: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (SP), o Colégio Militar de Santa Maria (RS) e o Comando de Operações Terrestres (DF).

“O presidente não considera o 31 de março de 1964 [como] golpe militar. Ele considera que a sociedade reunida, e percebendo o perigo que o país estava vivenciando naquele momento, juntou-se, civis e militares. Nós conseguimos recuperar e recolocar o nosso país num rumo que, salvo melhor juízo, se isso não tivesse ocorrido, hoje nós estaríamos tendo algum tipo de governo aqui que não seria bom para ninguém”, afirmou Otávio Rêgo Barros, porta-voz da presidência, na segunda (25).

A posição do presidente não é novidade. Bolsonaro já declarou sua admiração à ditadura empresarial-militar brasileira e de países vizinhos, como Chile, Paraguai e Argentina. Também faz, frequentemente, alusões a Brilhante Ustra como um herói. Ustra é o primeiro militar brasileiro condenado por tortura.

Com informações de Agência Brasil. Imagem de Comissão Nacional da Verdade e Latuff.